9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 16.10.13

	9.1 BAB DO FUTURO
	9.2 AMAZNIA EM DOIS TEMPOS

9.1 BAB DO FUTURO
Novos aparelhos captam sinais vitais do beb, avaliam as condies do ambiente onde ele dorme e enviam as informaes para o celular dos pais
Juliana Tiraboschi

Pais ansiosos e de primeira viagem so o pesadelo dos pediatras. Com o arsenal tecnolgico  disposio hoje, no hesitam em ligar, mandar torpedo ou escrever e-mail para rechecar se o beb est respirando direito, se a temperatura  adequada, se a cria no vai sufocar no travesseiro, etc. Para alvio dos doutores, a prpria indstria de tecnologia est lanando sadas para acalmar pais e garantir noites de sono sem interrupes para mdicos.

 Essas solues ganharam a forma de dispositivos e aplicativos para smartphones que monitoram diversas funes fisiolgicas dos bebs, analisam as condies do ambiente e avisam quando h algo fora do padro. Todo pai conhece o estresse de se perguntar se o filho recm-nascido est respirando, diz Jacob Colvin, pai de duas crianas. Ele  fundador da Owlet, empresa que criou uma meia inteligente que informa batimentos cardacos, oxigenao, temperatura e qualidade do sono do beb. Nos EUA, o aparelho custa US$ 199. Outro gadget, produzido pela empresa Sproutling,  uma tornozeleira com sensor de parede e aplicativo. Verifica, alm dos sinais vitais, a temperatura e os nveis de umidade e rudo do quarto do beb.

Apesar de recm-nascidos, os produtos j geram polmica. Para alguns mdicos, o excesso de informao pode gerar ainda mais ansiedade. A interpretao desses sinais deveria ser feita por pessoas treinadas, diz o pediatra Victor Nudelman, diretor clnico do hospital Albert Einstein. Com a experincia de acompanhar bebs que precisam de monitoramento em casa, ele diz que a vigilncia constante causa uma tenso muito grande nos pais. Ou seja, sem recomendao mdica, usar esses aparelhos pode mais atrapalhar do que ajudar. 

 Isso no desanima pais que ganham a perspectiva de saber tudo o que se passa com a cria. Fico pssima quando encontro meu beb gelado ou suando no bero, diz Erica Morgan, uma das mes que participaram dos testes do monitor da Owlet. Pelo jeito, aprovou a nova bab.  


9.2 AMAZNIA EM DOIS TEMPOS
Em 1982, o oceangrafo e documentarista Jacques Cousteau comandou uma expedio pela floresta. Passados 25 anos, seu filho Jean-Michel refez a viagem e se diz otimista com o que viu
Juliana Tiraboschi

Aos 7 anos de idade, o francs Jean-Michel Cousteau, que hoje tem 75 anos, passou por uma experincia que determinou os rumos de sua vida. O meu pai me jogou na gua com um cilindro nas minhas costas. Assim, ele comeou a me fazer entender que mesmo a minha vizinhana estava conectada ao oceano, diz. O pai de Jean-Michel  o renomado explorador Jacques Cousteau (1910-1997), oficial da marinha francesa e oceangrafo, clebre por seus documentrios e inovaes em equipamentos de mergulho. Inspirado pelo pai, Jean-Michel tambm dedica a vida a estudar e a divulgar a importncia dos ambientes aquticos. Entre 1981 e 1982, passou 20 meses viajando pelo rio Amazonas em uma expedio de pesquisa liderada pelo pai. Vinte e cinco anos depois, entre 2006 e 2007, o arquiteto e explorador voltou  regio e passou mais dez meses refazendo a viagem, que passou tambm por partes do Equador e Peru.

Herana - O lendrio explorador Jacques Cousteau  homenageado em viagem do filho Jean-Michel (acima)

Muitas pessoas que participaram da viagem de 1982 estavam na segunda expedio. Foi incrvel observar as reaes delas s diferenas encontradas, disse Cousteau em entrevista  ISTO. Uma delas foi o crescimento populacional: durante esse perodo, a populao da regio amaznica brasileira passou de cerca de 12 milhes para 20 milhes de pessoas (leia quadro). Para o pesquisador, foi assustador observar o impacto que esse contingente de moradores causou e vem causando sobre a floresta. De acordo com as observaes de Jean-Michel, muitos dos migrantes so pessoas pobres, que vm de favelas do Rio de Janeiro e de outras cidades e vo para a Amaznia porque encontram oportunidade e espao para pescar, cultivar alguns alimentos, cortar rvores, construir casas e sobreviver. No posso culp-las por isso, porque s vezes a vida  dura. Mas o que nos preocupa  que a maioria no sabe nada sobre a floresta, no sabe que os nveis dos rios variam conforme a estao e no conhece doenas como a malria, diz. 

 Para combater a desinformao, Jean-Michel pretende desenvolver um projeto educacional e ambiental na regio, nos moldes de outros programas de sua fundao, a Ocean Futures Society. Um deles j foi apresentado para estudantes no Guaruj pela organizao, que conta com uma sede em So Paulo. A maioria dos brasileiros no conhece a Amaznia, ento tentamos educar as pessoas com informao, o que vai ajud-las a tomar melhores decises, afirma.

Outro problema que chamou a ateno de Jean-Michel foi o aumento do impacto da indstria petroleira nas guas da regio entre a dcada de 1980 e meados dos anos 2000. Peixes esto se contaminando com essa gua, o que contagia os pssaros que se alimentam deles e as onas que comem as aves. H tecnologias para limpar essa gua antes de descart-la nos rios, mas a indstria no est fazendo isso. Por outro lado, o explorador se diz otimista com as polticas de combate ao desmatamento apresentadas pelo governo nos ltimos anos.

Alm disso, Jean-Michel preocupa-se com algumas solues buscadas para aumentar a produo de energia no Brasil, como a construo de hidreltricas na regio amaznica, a exemplo de Belo Monte. Acho que isso  um grande erro, pois vai inundar milhares de quilmetros de terras e expulsar a populao. A devastao vai ser monumental, vai afetar a migrao de peixes e as terras indgenas. H outras abordagens, outras formas de energias renovveis muito melhores, diz.

Jean-Michel est no Brasil nesta semana, at o dia 16, para divulgar o livro Retorno  Amaznia, que est sendo lanado em So Paulo neste sbado e no qual o explorador retrata em 300 pginas as duas expedies. Alm disso, uma exposio com as fotos mais marcantes da publicao ser exibida em Manaus, de 16 a 19 de dezembro, e em Bzios, de 12 de janeiro a 12 de maro de 2014.  

A floresta deve ser vista como um negcio
O documentarista Jean-Michel Cousteau diz que o desmatamento deixou de ser um problema crtico da Amaznia. Ele defende que a floresta seja explorada, mas com limitaes.

ISTO  O sr. observou degradao maior em 2006 do que em 1982. Como v a situao agora?
 Jean-Michel Cousteau  Eu estou mais otimista hoje. O desmatamento era um problema crtico em 2006, mas est sendo atendido com cada vez mais ateno pelo Brasil. Mais gente est preocupada com isso. A Amaznia deve ser vista como um negcio. Voc no pode tirar mais do que a floresta oferece. Se corta uma rvore, tem que plantar outra no lugar. Mas no pode ser da espcie que d mais lucro.  preciso respeitar a diversidade da floresta.

ISTO  Quais foram as principais diferenas entre a expedio de 1982 e a de 2006?
 Jean-Michel  Na segunda tnhamos um equipamento muito melhor e mais moderno. Em 1982, no tnhamos nenhum meio de comunicao na mata com o mundo exterior. Em 2006, podamos contatar pessoas da equipe em Manaus. Alm disso, na segunda vez, passamos muito mais tempo mergulhando, o que nos deu a chance de conhecer criaturas que nunca havamos visto.

ISTO  O sr. acompanhou os recentes protestos de povos indgenas? 
 Jean-Michel  Tento acompanhar. Gostaria que as autoridades prestassem mais ateno a essas pessoas e ao que elas podem nos ensinar. Os ndios tiveram sucesso vivendo na floresta por milhares de anos, enquanto ignorvamos sua existncia.

